Pedro Henriquéz Guajardo: É preciso democratizar a ciência e o conhecimento

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Diretor do IESALC, Pedro Henriquéz Guajardo, afirma que abrir as universidades e debater a questão do ensino privado são pontos que devem ser debatidos durante a CRES 2018.

 Estabelecer estratégias para a melhoria da educação superior, respeitando as especificidades de cada instituição é o desafio da III Conferência Regional de Educação Superior (CRES 2018). O evento, que começa na próxima segunda (11), reúne comunidade acadêmica e representantes dos governos da América Latina e Caribe para debater melhorias para as quase 14.000 instituições de ensino superior da região. Ao final da Conferência, uma declaração e um plano de ação serão elaborados e apresentados. O coordenador da CRES 2018 e diretor do Instituto Internacional para a Educação Superior na América Latina e Caribe (UNESCO-IESALC), Pedro Henriquéz Guajardo, destaca que a expansão da participação do setor privado na educação superior, a influência das novas tecnologias na produção de conhecimento e o processo de democratização das instituições de ensino serão pontos-chave da Conferência, que acontece na Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina, entre 11 e 15 de junho.

 O que podemos esperar da CRES 2018?

 A Conferência foi convocada pela UNESCO-IESALC e pela Universidade de Córdoba, na Argentina. Vão ser debatidas a educação superior pública e privada da América Latina e Caribe. Haverá participação de todos os atores da Educação Superior na região: reitores, diretores, acadêmicos, trabalhadores, estudantes, redes, associações profissionais, centros de investigação, sindicatos, representantes de organizações governamentais e não governamentais e amigos da educação superior do continente. O que buscamos são formas de fortalecer sistemas de educação superior. Tivemos que unir as 417 categorias temáticas em torno dos sete eixos. Não é possível debater tudo. Os temas mais específicos estão, de certa forma, contemplados nos eixos. Essas questões serão tratadas nas mesas de trabalho e nos fóruns, mas de forma mais abrangente.

 

Que tipo de encaminhamento deve surgir da Conferência?

 Existem dois encaminhamentos: a declaração, que é um instrumento político, e um plano de ação, que é a parte concreta. Nosso plano é que a declaração se converta em propostas permanentes. O plano tem duração de 10 anos e deve ser implementado a partir de janeiro de 2019. Vamos tentar estabelecer o mínimo de obstáculos, para evitar que as instituições desistam da implantação. Também vamos contar com uma forma de monitoramento para acompanhar a implantação do plano. Além disso, durante a Conferência, autoridades dos governos são convidadas a dialogar. A partir daí pode surgir algum acordo ou política pública.

 O que houve de mudanças no cenário da educação superior na América Latina e Caribe desde a realização da CRES 2008?

Em primeiro lugar, houve uma explosão no número de instituições de ensino superior. Em 2008, eram cerca de 3.000 e, 10 anos depois, são 13.700 instituições. Hoje, nós precisamos pensar em uma forma de regulação desse crescimento porque, se continuar nesse ritmo, logo teremos instituições sem alunos. Em segundo lugar, nós passamos por um crescimento das redes e por um avanço tecnológico que não era realidade em 2008. É preciso discutir como a tecnologia pode ser um elemento da expansão do conhecimento e como esse crescimento pode se dar de forma consciente. Também a interculturalidade passou a ocupar um lugar de destaque na pauta de discussões. Esse foi um assunto discutido em 2008 e sua abordagem também se fará necessária agora, em 2018. Precisamos incluir setores, como a população indígena. Também a questão da qualidade e reconhecimento. A educação superior em 33 países é assimétrica. Para se ter uma ideia, nos últimos anos houve um aumento entre 23 milhões e 24 milhões de matrículas, a maioria concentrada em sete ou oito países. São aspectos que não podíamos pensar em Cartagena [onde ocorreu a II CRES], mas precisamos discutir hoje.

O senhor, além de coordenador geral da Conferência também é coordenador do eixo “o papel estratégico da educação superior no desenvolvimento sustentável da América Latina”. Quais vão ser os pontos principais da discussão deste eixo temático?

 É preciso repensar e levar em conta que a educação superior não é só a universitária (somente um terço das 13.700 instituições de ensino superior da região são universidades) e pensar como a educação é parte da contribuição para o sistema. Pensar na produção do conhecimento sustentável, assumindo os avanços tecnológicos existentes, mas percebendo que esse não é o único caminho. Do ponto de vista político, é preciso reconhecer outras formas de conhecimento além das já existentes na educação superior. Questões como financiamento, regulação, governabilidade dos sistemas e participação da iniciativa privada devem aparecer.

 A Agenda 2030 é um plano de ação global para, em 2030, alcançarmos o desenvolvimento sustentável. Qual é hoje a situação da América Latina e Caribe? Qual tem sido o papel da Educação Superior na situação atual de busca do desenvolvimento sustentável?

 A contribuição atual da educação superior é muito limitada. O que tem sido feito hoje é a busca da qualidade do conhecimento, o que não é suficiente na busca do desenvolvimento sustentável. É preciso firmar compromissos, envolver a questão nos debates atuais, como a questão das patentes e da construção dos recursos genéticos.

 A meta 9.5 da agenda 2030 trata do fortalecimento da pesquisa científica, melhoramento das capacidades tecnológicas de setores industriais em todos os países, particularmente nos países em desenvolvimento, incentivando a inovação e aumentando substancialmente o número de trabalhadores de pesquisa e desenvolvimento por milhão de pessoas e os gastos público e privado em pesquisa e desenvolvimento. Quais atitudes devem ser tomadas pelos países e universidades? Quais vão ser os desafios?

 É preciso democratizar a ciência e o conhecimento, patentes, exploração de recursos e como instituições fazem as discussões. E os governos precisam ver a necessidade da destinação dos recursos. Destinar uma parte do Produto Interno Bruto [PIB] e colocar a ciência como uma prioridade efetiva. É isso que leva a uma produção mais contundente. Um ponto que é preciso vencer é a falta de articulação entre as universidades. É preciso pensar junto. Geralmente, o que existe entre as instituições são convênios bilaterais, o que é preciso evitar. É necessário que as instituições busquem outros fatores para o reconhecimento, não basta o reconhecimento oficial que beneficia apenas dois atores, como é o caso dos convênios bilaterais. O processo de internacionalização passa por isso. Claro que cada país tem que estabelecer o próprio sistema.

 O Brasil enfrenta uma crise econômica que resultou em cortes nas áreas de educação, ciência e tecnologia. Do ponto de vista do senhor, qual deve ser o impacto desses cortes?

 Os cortes têm impactado diretamente na questão do financiamento. Isso prejudica a ciência como um todo e alguns pontos já podem ser percebidos, como as conversas que não têm atendido diferentes níveis da educação superior brasileira e o prejuízo dos alunos da rede privada na participação em eventos. É uma questão bem sensível, já que o maior número de matrículas brasileiras é na rede privada. Os cortes também atingem o reconhecimento dos diplomas e a proteção do sistema nacional de educação superior. A Conferência vem para clarear questões como essas que estão obscuras. É preciso pensar na realidade das instituições regionais, não só as grandes. Existem assimetrias entre as capitais e o interior. Outros países como Equador e Colômbia estão em situação parecida com a do Brasil.

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